29.8.20

Guardo pra te dar.

| |

Christopher, 

Eu provavelmente vou empurrar essa folha por baixo da sua porta e voltar tão rápido para a loja que talvez eu tropece. Se você me viu, por favor finja que não. Eu já estou mortificada só de imaginar.

Para te falar a verdade, eu não sei exatamente qual é o meu propósito com esta carta. Tem tantos caminhos que eu poderia seguir; tem tantas coisas que eu não consigo te dizer frente a frente. Acho que vou só escolher algumas delas aleatoriamente e ver onde eu chego - SE eu chego em algum lugar. Ok.

Eu sei que você não dorme. Eu sei, porque eu durmo bem tarde, e as suas luzes estão acesas. Aí eu acordo algumas horas depois, por motivos variados, e as suas luzes continuam acesas. Por favor não pense - sério - que eu fico te observando da minha janela o tempo todo. A esse ponto, uma olhadela para o seu lado da rua já virou uma segunda natureza. E você não dorme. Às vezes eu te vejo de manhã, com a testa na mesa da cozinha, e tenho que resistir muito à vontade de ligar para os bombeiros virem checar se você está... sei lá, vivo? Mas você sempre se mexe um pouco segundos antes de eu pegar o celular. 

Você se cobre demais. Eu sei que deve ter um motivo para o seu look inteiro preto, incluindo boné e máscara, até no verão. Mas eu estaria mentindo se dissesse que não me faz suar só pensar no calor que você deve sentir. Até mesmo minhas flores notaram. Na última vez que você passou na frente da vitrine, os cravos passaram a tarde toda comentando sobre a sua roupa. Tive que regá-los mais duas vezes aquele dia. Sinceramente, até eu tive que ir beber um copo d'água. 

Ah, perdão. Essa não era para ser uma carta de julgamentos. Não da minha parte, pelo menos. Não posso falar pelos cravos. 

O que eu quero dizer é: você pode achar que eu não te conheço - sério, você deixou bem claro na nossa última conversa discussão - mas eu sei o suficiente. O suficiente para saber que tem algo muito escuro correndo pelas suas veias, que te corrói por dentro. E eu não me refiro ao café, embora eu ache, sim, que ele piore as coisas. Sério, é café demais para um corpo só. Até mesmo para um corpo como o seu. 

Enfim.

Eu sei. De verdade. E o que quer que seja, Chris, o que quer que tenha te consumido... não merece tanto espaço. Eu pegaria para mim, se pudesse. Só pra te dar 5 minutos de paz. A esse ponto, eu já criei coragem o suficiente para dizer que eu te daria tudo o que você quisesse. Mas eu aceito começar com um pouco de paz - espero que você aceite, também. 

As portas aqui estão sempre abertas. Bom, na verdade a floricultura fecha às 18h, e eu tranco a porta do apê, mas a campainha funciona 24h. Você merece descanso. Deixa eu segurar por um momento o que quer que te impeça de respirar.

Ou não. Desconsidere tudo isso, se quiser. Se você odiou esta carta, e não quiser mais ver meu rosto, tudo bem. Mas se for o caso, preciso do tupperware do Tete de volta. Ele é chato com essas coisas. Enfim.

Com a esperança de que você sorria, 

Bo.


Sem comentários:

Enviar um comentário