30.7.20

Não tenha (as minhas) dúvidas

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Estou em guerra comigo mesma enquanto te encaro dirigir e você finge não notar.
É tarde da noite numa cidade gigantesca, que fala uma língua que eu ainda estou aprendendo a dominar e fica do outro lado do meu primeiro mundo. Todo tipo de cor ilumina seu rosto, passando pelas ruas movimentadas a caminho da minha casa. A minha favorita é rosa.
-No que você está pensando? - você cede e me pergunta.
Respondo que não sei, mas
estou pensando no rio Han. Em como toda capital parece ter um rio, no que isso significa e em todas as coisas que um rio guarda. Você é daqui. Você conhece Han (o sentimento) melhor que eu ou qualquer um que tenha os meus olhos, e você passa pelo Han (o rio) todos os dias. Você vê um rio de mágoas? De tristeza, de luto? As estatísticas do Han fazem sentido pra você? Você me contaria se eu perguntasse?
Estou pensando nas suas mãos. Abarrotadas de anéis em cima do palco e na frente das câmeras, totalmente familiarizadas com o peso de um microfone e com o peso do seu rosto enquanto chora. Eu conheço estes também. Se juntarmos nossas mãos, talvez o mundo fique mais leve. As suas são maiores que as minhas. Cabem mais dores nelas. Você aceitaria a minha mão em troca?
Estou pensando nos seus olhos de raposa. Naturais. Na sua pele de ouro. Natural. Em você inteiro banhado pelo sol no porto de Incheon. Dourado, dourado, dourado. Você tem luz própria.
Estou pensando nos meus olhos ocidentais e na minha pele pálida. Eu não sou daqui. Você acha meus olhos verdes o máximo. Eu tenho medo que eles te lembrem do quão longe eu vim. Por que eu tenho medo?
Paramos em frente ao prédio imenso que eu aprendi a chamar de casa. As janelas imensas de Seongdong-gu e todo o meu esforço para colorir esse apartamento. Meu piano amarelo que você toca mais que eu.
Você abre a boca, mas eu sou mais rápida:
-Bom, boa noite então.
Antes de ir pra você, eu preciso voltar pra mim.
Seu suspiro parte meu coração, mas eu não tenho mais o que dizer.
-Durma bem. 
Mas você sabe que eu não vou.

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