Ver uma calçada ser construída ao longo de uma semana
e nós dois nos destruirmos em dez dias
foi uma espécie diferente de desespero.
Quando coloquei os pés em Maceió, a calçada era pouco mais que um amontoado de tijolos e alguns sacos de areia, e nós éramos Roma, um império de mármore indestrutível.
Passei pela calçada quase todas as noites, tentando não pisar na areia usando tênis e assistindo um processo de construção que eu não achei que veria terminado antes do final da semana. Você botou fogo no Senado, nos Thermas e no Coliseu sem nem pensar duas vezes, num processo de destruição que eu nunca achei que viveria para ver.
Foi uma surpresa agradável ver a calçada ficar pronta, e poder caminhar sobre ela ao voltar para o hotel à beira-mar. Mas a única surpresa que eu trouxe de Maceió foi a sua partida mal anunciada.
Eu me lembro do Nordeste com um carinho imenso e uma dor monstruosa que em alguns dias ainda me dilacera o peito. A viagem se infiltrou pelos meus poros como a areia gosta de se infiltrar em... bem, em tudo. O que aconteceu por lá me prendeu numa gaiola da qual eu ainda não descobri como sair.
Eu nunca deixei Maceió,
foi Maceió que me deixou
desse jeito.
Eu fiquei pra sempre lá,
observando a calçada se fazer,
num estado permanente de me desfazer.
Eu nunca mais saí de lá
e mesmo de volta a São Paulo
ainda nado contra as correntes do oceano de dor
que encontrei em Alagoas.
Ainda ando sobre o que continua sendo só um amontoado de dor e sacos de areia porque
mesmo agora
ainda não consegui transformar nossas ruínas numa calçada sobre a qual posso andar tranquilamente.
(sept. 2019)


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